37 VELAS - Rodney Mutter B.Sc., D.C. | Doutor em Quiropraxia

37 VELAS

Guilherme e Amanda têm cinco e três anos respectivamente, no momento, e é uma idade muita linda.  As brincadeiras ocorrem o dia inteiro e fico impressionado com a maneira que eles entram na cena que estão criando e se perdem nas suas imaginações.

Lembro muito dessa liberdade de sonhar e viver intensamente o momento, sem se preocupar com as necessidades do dia a dia.
Há mais de 10 anos escrevi um artigo e achei que capta muito bem este momento.

37 velas

Ainda sinto o suspiro do verão enquanto corria no quintal. À tardinha era o período do dia que eu mais valorizava.  Tendo feito todas as tarefas pedidas pelos meus pais e, tendo conquistado uma tarde inteira de brincadeiras, sobrava simplesmente uma paz no ar que eu reconhecia como algo sagrado.

Eu tinha o costume de sentar em um degrau de concreto ao lado do meu cão que, infelizmente, ficava a maior parte do tempo negligenciado, e sonhava em detalhes sobre todas as grandezas que realizaria no dia seguinte.  Não lembro mais especificamente o que eu sonhava em ser um dia, um caubói ou um bombeiro, mas o que eu tinha comigo era uma sensação de inspiração e a minha vontade de alcançar grandeza.

Não posso acreditar que todas as pessoas tivessem sonhos iguais, porque se fosse verdade, não encontraria diariamente tantas pessoas passando a impressão de que simplesmente desistiram de suas vidas.

Atualmente, não sinto tanto o cheiro de verão, pelo menos não com a minha alma, mas eu sei que ele existe.  Eu vi isso hoje com um menino de cinco anos, de tênis sujo e seu cão negligenciado.  Eu vi no olhar dele e na maneira como ele pulou a liberdade da sua alma ingênua, diante do caos fabricado no mundo ao seu redor.

Também não sei se é apropriado curtir esse mesmo êxtase ingênuo durante a vida inteira, mas estou perturbado com a mania que temos de colocar em seu lugar, tarefas sem fim, tempo perdido e a solidão que vem junto com a independência.

Em uma noite de verão, quando eu tinha nove anos, um lago temporário se formou no quintal, devido a uma chuva forte na noite anterior.

Eu construí uma jangada/balsa com sobras de madeira separadas para serem queimadas e tábuas soltas na garagem.

Eu me declarei o melhor pirata do mundo e desenhei em minha mente, planos de grandeza para conquistar o mar infinito.  Juntei mais três amigos para carregar a balsa até o pequeno lago e não tinha a menor chance de flutuar, menos ainda de realizar a grandeza que desejava para ela.  Mesmo assim, apesar dos meus tênis encharcados e pés enrugados, fiz um dia perfeito e uma memória digna como nenhuma outra.

No próximo inverno fomos abençoados com um temporal de neve que lembrava algo do pólo norte.  Eu adorava cavoucar túneis e esconderijos dentro da neve, ao invés de construir castelos em cima dela.  Logo dentro da minha escavação, me dei conta de que minhas visões de catacumbas eram muito maiores do que meus braços sem pelos seriam capazes de realizar.

Sem perder a esperança do resultado final, decidi testar a ciência de outra forma.  Acreditei que se pudesse começar um túnel com minha pazinha e entrar um pouco, eu poderia avançar dali para frente usando o calor de velas para derreter a neve.  Avançando ainda mais o túnel e, desta forma, completando o labirinto que estava no croqui na minha cabeça, daria vida a este mundo mágico.  Ferramentas em mãos, eu não perdi tempo para iniciar.  Novamente me deparei com a derrota que, no final, não era nada comparada à fúria da minha mãe ao descobrir suas velas perdidas na neve que descongelara na próxima primavera.

Sinto falta de ser criança, mas não quero voltar.  A euforia que sinto quando descubro uma parte mais profunda de mim, vale muito, em troca dos dias com uma agenda cheia.  A liberação que sinto quando considero a vida de outra pessoa, é tão insubstituível quanto a minha balsa que nunca teve chance de flutuar no lago.  A paz que sinto quando abraço uma insegurança minha é tão completa quanto à realização de entender os limites de 37 velas.

Estime com gratidão os momentos que tiveram a sua grandeza e encontre valor naqueles momentos que demonstraram seus fracassos.  Muita coisa aconteceu desde os meus nove anos, mas ainda sinto como se fosse ontem.

Obrigado por todos vocês que me ajudam a carregar minhas balsas e me fornecem fósforos por inúmeras velas durante meu caminho.

Obrigado pelas inúmeras pessoas que me inspiram diariamente e por todas as outras que me fazem lembrar que, quando dispensada uma consideração justa, não existe fracasso no mundo. Eu ainda não sei o que quero ser quando eu crescer, e rezo que nunca chegue a descobrir.

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