Gerações - Rodney Mutter B.Sc., D.C. | Doutor em Quiropraxia

Gerações

Uma vez ao reclamar para minha mãe sobre a forma com que meu pai conduzia a casa, ela respondeu: “Seu pai reclama como seu avô reclamava. Ele te trata muito melhor do que ele foi tratado e você vai tratar seus filhos melhor ainda”.

No momento achei a resposta uma covardia e, de fato, não resolvi nada em relação as minhas queixas atuais.  Aprendi cedo que os ideais que tive não seriam realizados naquele ambiente e, por necessidade, aceitei o fato de que teria que esperar a minha vez.

Ofereço essa crítica com muita cautela e muito respeito pelo esforço que meus pais fizeram.  Eles deram muita atenção aos valores da vida: caráter, integridade, respeito, determinação, sendo essas as qualidades, que me ajudaram muito no meu caminho. Creio que se esforçaram muito para criar um mundo melhor para nós, dentro das condições deles e da maturidade e cultura da época.

Hoje reconheço as dificuldades que cada geração tem que superar e como os traumas dos pais são repassados para os filhos, restando como tarefa de cada geração filtrar o bom do ruim e melhorar para a próxima geração.  Bem como a minha mãe me explicou.

Tudo isso eu entendo hoje, mas passei a minha infância infeliz em meu ambiente, me sentindo como uma tampa circular em um buraco quadrado – simplesmente não pertencia aquele espaço.  Aprendi cedo a encontrar paz interior e fazer algo produtivo com minhas frustrações.  Trabalhei muito com minhas mãos.  Gostava de trabalhar com madeira fazendo casa nas árvores, mecânico da minha bicicleta, enfim, espaço, ferramentas e tempo nunca faltaram, e aprendi muito cedo a sobreviver.

Não sonhava em crescer e ser um bombeiro ou jogador de futebol.  Passava a maior parte do tempo sonhando em tudo que faria diferente dos meus pais para criar, um dia, a família que queria para mim naquele momento.  Valorizava muito esses ideais e, apesar de não poder me expressar em voz alta, tudo era muito claro para mim e, acreditei com toda a minha alma em um mundo melhor e feliz, onde eu me sentiria no meu devido lugar. Junto a tudo isso, acreditei no amor.

Em 2005 me casei e logo depois meu filho nasceu.  Chorei de alegria e, ao mesmo tempo, tremia de medo.  Havia passado 33 anos criticando os outros e planejando este momento para mim.  Havia chegado a hora H. O momento de filtrar tudo que observei e colocar em prática tudo que sempre sonhei.

Encarei o momento como encaro tudo em minha vida.  “Tudo bem, vamos lá, sou capaz e vou fazer!” No início era fácil.  Ele passou a maior parte do tempo literalmente colado na minha esposa e meu envolvimento era mais na forma de ajudante.  O tempo passava e eu passei a curtir mais meu tempo com ele e ver sua personalidade se desenvolvendo. Ele ria, chorava, encheu muitas fraldas, mas estava tudo indo bem e senti que estava realizando tudo como sempre havia planejado e, na prática, “corrigindo os erros dos meus pais”.
Não sei exatamente quando, mas em algum momento, comecei a sentir um conflito interno.  Estava me esforçando muito com ele, mas ele não parecia ser muito feliz.  Ficava frustrado ao olhar para ele.  Ele reclamava muito, parecia estar insatisfeito com tudo e resmungava bastante.  Levei um tempo para dar nome ao meu conflito interno, mas acredito que tinha uma sensação de fracasso como pai.

Estava vivenciando o papel mais importante da minha vida e tudo estava em risco diante dos meus olhos.  Comecei a cobrar mais dele, a ser mais firme com ele.  Não era possível que ele não pudesse ser feliz no ambiente que criei com tanto planejamento e tanto coração.  Via no olhar dele algo que só hoje identifico – era a frustração por ele não entender de onde vinha toda a minha cobrança.  Ele não podia entender que suas atitudes normais no dia a dia pudessem gerar um conflito dentro de mim apenas olhando para ele.

Passei alguns anos com meu conflito interno e fechando cada vez mais o cerco para ele.  Antes de dormir ficava todas as noites, por alguns minutos no quarto dele, olhando para ele dormindo e pensando em tudo que eu estava lhe devendo.  Pensava em mais um dia que se encerrava e eu não estava em dia com ele.  Meu sono era pesado e com uma dor no coração por não poder proporcionar a vida que ele merecia, a felicidade que ele merecia e o orgulho do pai que desejava que ele tivesse.Tenho na minha sala de atendimento um porta-retrato digital onde passam fotos o dia inteiro.  São fotos da minha família, meus dois filhos, minha esposa, nossas viagens, etc. Dentro deste álbum de fotos há uma dele sozinho com um sorriso tímido.

Cada vez que passava aquela foto sentia mais peso no meu coração ao lembrar da infelicidade dele.  Junto a isso voltavam as sensações de cobrança por não poder realizar com competência meu papel de pai.  No momento, não podia descrever tudo com palavras, mas era uma emoção muito profunda e muito triste para mim.  Repetia-se dia após dia.
Um dia durante uma consulta, enquanto manipulava um paciente, olhei para cima e vi passar aquela foto novamente, só que dessa vez senti uma liberdade que não esperava.  Na hora ficou tão claro.  A foto que olhava era simplesmente uma foto dele com um sorriso tímido.  O que eu vi na foto foi um reflexo de mim com cinco anos de idade e infeliz.

Entendi na hora as marcas que foram registradas em mim em relação a minha infância e como isso me impedia de poder olhar para ele como ele realmente é.  Claro, ele resmunga, reclama e tem momentos infelizes, mas não mais do que qualquer criança normal.  Junto a isso, diariamente ele chega a rir até doer a barriga, corre para sentir o vento em seu rosto, recebe muitos beijos, abraços e palavras de carinho para que ele não esqueça nunca o quanto é amado e muito bem-vindo neste ambiente e nesta família.  Enquanto brinca, ele também deve sonhar, criando seus ideais e planejando o mundo perfeito que vai repassar para seus filhos.

Não sou o pai que imaginava que seria.  Em muitos momentos me decepciono comigo mesmo.  Em outros momentos me surpreendo além dos meus próprios sonhos, mas com certeza, estou passando para ele um mundo melhor, e dando a ele a oportunidade e os ferimentos para construir para meus netos algo melhor ainda para sua geração.  Bem como meu avô e meu pai fizeram comigo.

Muitas pessoas que culpei no meu passado por terem me tratado mal, hoje vejo que estavam fazendo o seu melhor naquele momento.  Isso não quer dizer que deveria ter ficado com eles naquela confusão, nem aguentando algo que “não me servia”.  Simplesmente este conhecimento me ajuda a perdoar os outros e, consequentemente, a me perdoar também.

Normalmente não é maldade que causa confusões e dor aos outros, mas sim pessoas em níveis de maturidade e evolução diferentes que tentam se fazer entender, por terem formas diferentes de pensar e filosofias de vida que não combinam.
Em cada história existem três versões: a sua, a minha e a verdade.   A verdade, às vezes, leva tempo para ser escrita.

Hoje quando olho para o meu filho, sinto uma felicidade em vê-lo feliz e um prazer imenso em poder participar da sua vida.  Tenho orgulho em poder repassar o meu conhecimento e um amor muito além do que imaginava que existisse quando sonhava com isso há alguns anos atrás.

Agradeço aos meus pais por tudo que fizeram por mim.  Não posso imaginar nem entender tudo que se passava em suas vidas e os motivos por trás de suas decisões, mas tenho que acreditar que fizeram o seu melhor dentro das condições da sua geração, e que expressaram da melhor maneira que puderam o seu amor.

Guilherme, de fato, está bem, e este reconhecimento me confirma diariamente que eu também estou bem!

Rodney Mutter

29 respostas para “Gerações”

  1. Sonia disse:

    Rodney, compartilho contigo tuas ideias, experiências e conclusões. E o que te faz diferente e te faz melhorar é esse eterno questionamento sobre como lidamos com nossas vidas. Tu faz isso e isso faz a diferença. Teu Guilherme é uma criança muito feliz por estar nessa família, beijaooo Sonia

    • Rodney disse:

      Ola Sonia!
      Muito obrigado pelas palavras, carinho, e confiança em mim. Agradeço este oportunidade de participar na caminhada de cada um de vocês e este oportunidade de aprender e crescer junto.
      Forte abraço,
      Rodney

  2. Tudi disse:

    Parabéns Rodney!
    A tampa redonda de um buraco quadrado foi a melhor definição que li sobre algo que devo ter vivido também na minha infância. E graças aos meus dois filhos, já vivo o perdão a muito tempo. A jornada não terminou ainda! E continuar a evolução é o meu objetivo maior para não me sentir frustrada como mãe, independente de ser ou não, para os meus filhos.
    Abraço – Tudi

    • Rodney disse:

      Oi Tudi, Obrigado pelas palavras! Fico feliz quando outros se identificam com minhas palavras, emoções, e experiências. Com certeza, ser pai (e mãe) é uma oportunidade enorme e único de entender melhor nossos relacionamentos, crescer e perdoar. Agradeço a sua participação nessa caminhada maravilhosa que é a vida! Abraço

  3. Renata Mendes disse:

    Li e me emocionei. E tenho orgulho de saber que acompanhei uma pequena parte dessa história e mais do que isso, descobri que ganhei um amigo extremamente sensível e dedicado a passar valores tão importantes para seus filhos.
    Sempre acreditei que tudo que fazemos na vida com amor, se prospera. Você pode ser tornar vítima da vida que leva ou erguei a cabeça trabalhar e buscar o que é melhor para você. Cada um segue a opção que achar melhor!
    Durante esse processo a gente aprende que a luta nos enriquece de experiência, a dor aprimora as emoções e o sacrifício tempera-nos de caráter.
    Não sei ainda analisar o outro lado porque AINDA não tenho filhos, mas consigo acompanhar essa evolução acreditar que não somos perfeitos. E entendo que meus pais, assim como você foram um dia crianças como eu, e que a única coisa que tentam é nos ensinar valores que acharam necessário manter através de seus ensinamentos e minimizar algumas frustrações vividas por eles. É exatamente o que você tem feito com muita dedicação e pode ter certeza, Guigui e Amandinha vão lembrar isso.
    Com carinho Rê

    • Rodney disse:

      Oi Rê, Acho que você acabo de publicar seu primeiro artigo no web! Muito bonito as suas palavras e foram escrito muito eloquente no papel. Ficamos muito felizes que temos alguém como você para participar em nossas vidas e fazer parte de nosso historia. Você é um dos poucos que considero “família” na minha vida e fico agradecido que tu estas por perto. Continua sendo essa pessoa maravilhosa que tu és e te garanto que vai conquistar tudo que sempre sonhou. Pode agradecer seus pais, porque com certeza estas características suas de caráter, integridade, sinceridade e boa vontade são em grande parte pelo esforço deles. Qualidades que tenho certeza você vai repassar na hora certo. Um grande abraço e mais uma vez obrigado por sua participação continua. Rodney

  4. solange Kauer disse:

    Olá Rodney, realmente as vezes pensamos que nossos pais foram duros conosco e hj entendemos, pois fizemos o mesmo com nossos filhos e descobrimos que para nossos pais tambem foi dificil tomar algumas atitudes.
    Solange

    • Rodney disse:

      Oi Solange! sempre me lembro um ditado que diz ” aprendemos a ser filhos quando somos pais, e pais quando somos avos”. Como falei na pagina inicial do site, a verdade as vezes leva tempo para ser escrito. Aprendi com tempo a perdoar meus pais para “todos os seus erros”. A parte difícil é a grande dose de humildade que vem junto =). Grande abraço, Rodney

  5. Gabi disse:

    Dr. Rodney!

    Maravilhoso o seu artigo, para variar chorei.
    Parece que estava revendo a minha infância e atual condição de vida.
    Obrigado por mais esse ensinamento.
    Obrigado por ser amigo, professor, irmão e algumas vezes pai.
    Abraço!

    • Rodney disse:

      Oi Gabi,
      Sem você, a nossa vida seria outra! Agradeço muito o seu apoio nos ultimo 6 anos permitindo tempo para eu refletir e colocar estes sentimentos no papel. Agradeço também este oportunidade de participar na sua vida e observar a sua evolução pessoal. Espero que sempre consigo cumprir o “papel” necessário para te ajudar no seu caminho. Que continua sendo a pessoa dedicada, sincera, e carinhosa que tu és.
      Forte Abraço,
      Rodney

  6. Fábio Franciscatto Stieven disse:

    Rodney,
    Parabéns pelo brilhante texto, pela palavra sensata e pelo sentimento sincero.
    Me identifiquei muito, muito mesmo!

    Grande abraço do amigo, aluno e colega!

    • Rodney disse:

      Oi Fabio!
      Obrigado pela as palavras e sua confiança em mim. Creio que são palavras que expressa o que muitas sentem mas nao sabem como identificar. Foi muito terapêutico pra mim escrever e ler a minhas próprias palavras. Obrigado por ser essa pessoa acessível e dedicada que tu és. Valorizo muito a nossa amizade e convivência.
      Grande abraço,
      Rodney

  7. Paulo M. Magalhães disse:

    Dr:Rodney Mutter,
    Saudações,
    Hoje,fui presenteado c/ um email de meu filho,Paulo,no qual me enviou seu blog,com destaque p/este texto “GERAÇÕES”.
    Sensacional,li todas as tuas postagens.
    Fiquei admirado c/ sua sensibilidade em transmitir,sentimento de pai,filho,esposo e de elevar o conceito nobre da familia,e a importância da mesma em nossa formação.
    Imagine vc que meu filho,com seus 35 anos,minhas preocupações,incertezas ,desejos,e ansiedade,apesar de nossa maturidade,não são diferentes das suas,continuo em campo,procurando expressar o qto o amamos e de sua importância,em nossas vidas,é a força do amor maior.
    O que nos alegra,e satisfaz,é saber que meu filho tem a sensibilidade em reconhecer o valor de suas palavras,e ensinamentos nelas contidas,e nos transmitir isso.
    Parabéns pelas mensagens,continue,é sublime esse seu dom de repassar valores,retirados de pequenas e multiplas nuances vividas. abraço.paul.

    • Rodney disse:

      Oi Paulo,
      Acredito que fiquei tão emocionado com a sua resposta como o senhor ficou com o próprio artigo. Muito lindo as suas palavras e agradeço os mesmos. É bonito de ver que as palavras transcendam as gerações e aparentemente ajudarem você e seu filho se aproximar mais ainda. Fico muito feliz mesmo. A chegada deste artigo foi bastante interessante pra mim. Para poder colocar no papel, foi necessário perdoar (eu mesmo e os outros) e ser mais humilde. Escrevo para prazer e como uma terapia. Quando deixo meus sentimentos exposto para o mundo ver, parece que já ajuda muito com a cura. Espero que no futuro sempre consigo entregar algo que vale a leitura.
      Grande abraço,
      Rodney

  8. Parabéns Rodney, por expressar de forma brilhante os sentimentos de um pai para com seu filho.
    Quem sabe um dia, todos os pais, começando pela paternidade responsável, possam ter orgulho em dizer que foram bons pais.
    O mundo está precisando de bons pais, pelo bem das gerações futuras. Abraço

    • Rodney disse:

      Oi Danilo!

      Agradeço muita a sua resposta e fiquei feliz de saber que continua acompanhando os artigos. Creio que nascemos para melhorar o mundo para os próximos gerações e fico feliz quando reconheço posturas pessoais que tenho que mudar. Isso me dar permissão de curtir ainda mais os próximos passos.

      Um grande abraço e até o próximo artigo =),
      Rodney

  9. Sabrine Muck disse:

    Conseguistes com leveza e simplicidade expressar tantos sentimentos nobres, aflições, ética e valores essências…
    Definitivamente escrever é uma arte, excelente o texto!

  10. Marcelo disse:

    Parabéns Rod, muito bom!
    Expressastes muito bem sentimentos que, imagino, muitos pais tem.
    Forte abraço.

  11. Heron disse:

    Rodney!
    Pessoas de grande sensibilidade como voçê precisam escrever muito para podermos aprender contigo. Parabéns!Grande abraço!

    • Rodney disse:

      Oi Heron,

      Quanto tempo. Muito obrigado pela as palavras e seu carinho. Fico feliz que se identificou com o artigo e espero que continue me expressando corretamente no papel. Gosto muito de escrever e fico contente quando as palavras saiam bem. Espero que esteja tudo bem contigo e agradeço mais uma vez o seu apoio, confiança e amizade!

      Grande abraço,
      Rodney

  12. Ane Vanuza Nicolei disse:

    Rodney, obrigado por compartilhar em palavras, um sentimento que acho que é comum à todos os pais, mas que muitas vezes nem sabemos identificar e expressar.
    Fiquei emocionada.
    Abraço.
    Ane

    • Rodney disse:

      Ane,

      Muito lindo as suas palavras. Escrevo estes artigos pra mim. Acaba sendo uma terapia pessoal. Mas depois que esta pronto, torce que alguém vai se identificar e que vai gerar mudanças nos outros. Suas palavras confirmam essa esperança. Obrigado mais uma vez e espero que num momento futuro consigo novamente “te alcançar no papel”.

      Grande abraço,
      Rodney

  13. Elton Haubert disse:

    Rodney, muito bom.
    Admiro sua sensibilidade !!
    Parabens

    Elton

  14. Sandra Moré Fernández disse:

    Rodney que lindo,estou emocionada ,fique sabendo que vc e realmente um ser humano dotado de sentimentos aonde todos tem orgulho de ti .Todos os pais gostariam de ler ,todos os filhos ,e claro a sua esposa ,obrigado por compartilhar e transmitir seu conflito que hoje foi superado.
    Abracos. Sandra

    • Rodney disse:

      Oi Sandra,
      Muito obrigado pela afirmação que as palavras e sentimentos foram expressadas corretamente. Este artigo foi importante pra mim, porque trato de um tema pessoal muito profundo. Estava muito tempo querendo colocar isso no papel mas sempre faltou algo. Aquele algo foi humildade na forma de me expressar. quando veio aquilo, também veio o artigo. Espero que sempre consigo repassar algo útil, inspirado, e numa forma correto.
      Um Grande Abraço para todos em casa,
      Rodney

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