Por que eu decidi ficar no Brasil? - Rodney Mutter B.Sc., D.C. | Doutor em Quiropraxia

Por que eu decidi ficar no Brasil?

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Por que eu decidi ficar no Brasil?

Diariamente alguém me pergunta por que eu decidi morar aqui no Brasil. O assunto sempre começa igual, “nossa cara, por que você veio morar nesse país de #%ˆ@? Você que vem dos EUA, como aguenta morar aqui?”

Entendo as críticas ao Brasil e concordo em parte com as reclamações que estão em pauta. Porém eu sempre acho que as pessoas estão muito iludidas com o mundo no exterior e, pior do que isso, não enxergam as qualidades boas deste país. Lembre-se que eu escolhi ficar aqui e saiba que já tive muitos motivos para desistir.

As pessoas gostariam de morar em Gramado, Florianópolis, Nordeste, no exterior, enfim… Mas o que eles não enxergam é que quando você vai a passeio, com dinheiro no bolso, com conforto e assistência de um hotel, agência de viagens, camareira, buffet de café de manhã – tudo é maravilhoso. Morar nestes mesmos lugares aonde você tem que manter sua casa, preparar o seu café, lavar as suas roupas, muda a história. E “esta vida de sonhos nos EUA” também é muito diferente do que o luxo de um hotel e, mais ainda, quando o prazo passa de duas semanas.

Tento explicar para as pessoas que toda organização dos EUA e toda estrutura que chama tanta atenção, também tem seu custo. Algo que sentia por 29 anos que morei lá, foi uma sensação discreta, mas muito real, que estava sempre sendo conduzido para a esquerda e para a direita, fazendo com que me conformasse dentro do sistema americano. Comento sempre que “vivíamos uma ‘democracia’ falsa aonde nos eram dadas escolhas”. Porém o que eu não enxergava, mas sentia, é que as escolhas eram calculadas e selecionadas antes de serem apresentadas. Desta forma qualquer uma das opções servia para o bem do governo. Ou seja, nos apresentavam três opções para escolha, mas na verdade existiam dez opções originais. As sete que não serviam para o governo eram eliminadas antes de serem apresentadas.

Entendo plenamente as dificuldades que o Brasil oferece para seus moradores e dou toda a razão para as reclamações. Porém quero lembrar a todos que reconheçam as oportunidades que existem aqui: a cultura, o povo, a capacidade que se tem para crescer, mudar, a liberdade que temos (entendo que é discutível esta palavra).

Também existe um núcleo da minha história que vai muito além de tudo isso. Nos primeiros anos que morei aqui tive total incentivo para desistir. Passei fome, passei frio, fiquei isolado emocionalmente, profissionalmente, trabalhava com uma profissão pouco conhecida, não falava o idioma, além de outros problemas pessoais que traçaram uma rota direta de volta aos EUA. Por que eu fiquei?

Existe algum momento na vida de cada um onde você se encontra numa encruzilhada e tem que escolher se vai para frente ou para trás. Para mim, foi aqui no Brasil e naquele momento. A possibilidade de desistir dos meus planos aqui significava a morte, literalmente e simbolicamente. Eu não conseguia me imaginar voltando aos EUA fracassado e morando no mesma cidade, começando do zero. E sabia que se eu não insistisse naquele momento para garantir meu futuro pessoal e profissional, possivelmente passaria o resto da minha vida, arrependido, me sentindo fracassado e, possivelmente, dependente dos outros.

Falava para meus amigos e familiares que eu só voltaria por minha opção e se fosse para avançar profissionalmente ou pessoalmente. E voltar porque não deu certo, não era uma opção! Em palavras mais cinematográficas – queimei o barco que me trouxe pra cá, se tornando impossível qualquer ideia de voltar atrás.

Em muitos momentos eu acho que curto o Brasil mais do que os brasileiros. Foi necessário fazer algumas mudanças. Percebi logo que se eu for depender de outras pessoas para muita coisa, fica difícil. Procuro sempre soluções ao invés de focar nos problemas. Então desisti com ideias de uma clínica grandiosa multidisciplinar e fiz algo totalmente enxuto para não me frustrar. O trânsito é complicado e as ruas são péssimas, sim, então decidi trabalhar em casa para não frequentar tanto a rua. A segurança é complicada, sim, então não vou andar de BMW. Entendo e concordo que muitas adaptações são injustas, mas qualquer lugar em que você for morar tem dois lados e, em algum momento, você terá que abrir mão de alguma coisa.

Outra coisa que defendo, o fato que meus filhos estão sendo educados neste ambiente trabalhoso, possivelmente fará com que eles sejam mais adaptados para o futuro em qualquer lugar. O americano, devido ao seu conforto, organização e facilidade com tudo, muitas vezes não se adapta longe de casa.

Tudo tem seu lado bom e seu lado ruim. Não desista das queixas e não pare de incentivar mudanças para melhorar o país e acabar com muita disfunção, MAS também não desista de tudo que é bom, valioso e maravilhoso neste Brasil que eu escolhi para amar.

Ainda tenho muita coisa para conquistar aqui. Financeiramente o Brasil não me oferece as mesmas oportunidades e, como a maioria das pessoas daqui, ainda luto por segurança financeira. Encontro conforto quando me lembro da qualidade de vida que tenho e, principalmente, do tempo que passo em casa, curtindo uma rotina agradável e saudável.

Por mais que poderia reclamar, o Brasil me deu minha linda esposa e meus filhos maravilhosos, assim realizando o maior sonho que tive desde a minha infância – constituir a família que sempre quis e um núcleo/lar estável e completo de amor, carinho, respeito, liberdade, conforto e segurança emocional – todas as características que não sentia na minha infância – nos EUA!

Rodney Troy Mutter

Doutor em Quiropraxia

www.rodneymutter.com

15 respostas para “Por que eu decidi ficar no Brasil?”

  1. Adriano disse:

    Parabéns pela sobriedade com que encara seus desafios Rodney ! Você tem uma linda família e merece todo sucesso ! Obrigado por contribuir com o nosso país ! Um abraço! Adriano Peraro, Ana Paula e Majú. Lembra-se de nós?

    • Rodney disse:

      Claro que lembro de vocês! Ainda estou com muito saudade da Maju (e seus pais também =)!!! Obrigado pelas palavras, carinho e espero que esteja tudo bem com essa família linda. Espero que vocês estão felizes na casa nova. Forte abraço, Rodney

  2. Edileuza Kaiser disse:

    Obrigado por amar a minha pátria amada Brasil..

  3. Anelori _ Eugenio disse:

    Querido, um grande abraço. Você é um vencedor e nos orgulhamos de você. Um beijo a todos, com carinho.

  4. luciana gehring disse:

    Concordo com a tua opinião Rodney.Esta e a mesma pergunta que meu marido Paolo Banti ouve sempre. Porque deixou a Itália para morar aqui.ou porque nao volta .Mas as pessoas esquecem que viver e passear sao coisas bem diferentes.Um abraco

    • Rodney disse:

      Concordo Luciana! Temos muita coisa boa aqui! (principalmente os estrangeiros – haha =)

      • Luciano disse:

        Na verdade, o que temos de melhor aqui são os Brasileiros que fazem desta nação aquilo que eles é: um país acolhedor, sem xenofobias (Ou xenofobia de alguns poucos ignorantes), somos acolhedores e alegres. Somos um país próspero e com muitas riquezas (inclusive riquezas que já foram totalmente esgotadas em países como os EUA e tantos outros), somos uma nação predominantemente pacífica e hospitaleira. Somos resilientes diante das dificuldades e otimistas quanto ao futuro. Temos uma democracia que vem se aperfeiçoando com a força detida a nação que já não mais admite o colonialismo, em fim, somos um país livre e soberano do qual temos orgulho.

  5. Altair Lannes disse:

    Rodney,
    Perfeito.
    Apesar de todos os problemas que enfrentamos no dia a dia, acho que as coisas boas ainda são a maioria.
    Acho que devemos parar de ser esquerda ou direita, temos que ser para frente. Li essa frase hoje e achei que faz todo o sentido.
    Abraço.

  6. Rosa Zilles disse:

    Rodney! Muito verdadeiro as tuas colocações.

  7. Adriana disse:

    Lindo o texto!
    Queres publicar na FundaMental?
    Um abraço!

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